terça-feira, 19 de junho de 2012

A LENDA DE FAUSTO E AS SUAS APARIÇÕES NA ARTE



Temas como a natureza do homem, as influências sobrenaturais, a solidão, o jogo da vida, o individualismo, o sucesso, o sentimento de amor, a culpa, a morte, as crenças religiosas, a eternidade, o céu e o inferno, Deus e o diabo, o triunfo da vida, entre outros, estão presentes na lenda de Fausto. Baseado no Dr. Johannes Georg Faust (1480-1540), médico, mágico e alquimista alemão, Fausto é a personagem que identifica a popular lenda alemã e que Goethe tornou conhecida e alvo de interesse por diversas artes.

NA LITERATURA

A obra de Goethe catapultou Fausto para a fama no século XIX. Esta obra, um poema épico, editada em dois volumes, o primeiro e mais conhecido em1806 e o segundo em 1832. Pode resumir-se a historia nos seguintes aspetos:
O Anjo e o demónio fazem uma aposta (será que Mefistófeles consegue a alma de Fausto?). Mefistófeles (o demónio) seduz Fausto com a juventude e com o conhecimento em troca da sua alma. Fausto, que estava desiludido com os seus fracassos e ansioso por superar os conhecimentos da época, aceita a troca. Mefistófeles, com o seu poder maléfico, retira décadas de rugas ao rosto de Fausto e proporciona-lhe aventuras inimagináveis. Fausto está deliciado com a sua nova vida mas começa a ter saudades da sua terra natal, pelo que Mefistófeles o acompanha no seu regresso à cidade natal. Aí, Fausto apaixona-se por Margarida, e é ajudado pelo seu endiabrado companheiro na conquista da amada. No entanto, Mefistófeles conjura contra Fausto e revela o “caso” ao irmão de Margarida, Valentim. Valentim, encontrando-os em plena demonstração da sua paixão, ataca Fausto. Fausto defende-se e Mefistófeles, cobardemente, desfere um golpe fatal a Valentim e, maldosamente anuncia à cidade que Valentim morreu pela espada de Fausto. Antes do último suspiro, Valentim denuncia o caso da irmã com Fausto, que entretanto foge da cidade, arrastado pelo Diabo. A mãe de Margarida morre de desgosto. Margarida, esperando um filho de Fausto, depois de perder tudo, é condenada à fogueira. Fausto arrepende-se, volta à cidade, e vendo Margarida na fogueira renuncia ao pacto que fez com o senhor do inferno. Quebra-se o pacto e as rugas e cabelos brancos desgrenhados regressam a Fausto. Margarida olha para o fausto velho, reconhece-o.Fausto lança-se à fogueira onde Margarida está e libertam o seu amor.
O tema foi revisitado varias vezes e em vários estilos literários por escritores como Nikolaus Lenau, Fernando Pessoa e Thomas Mann. Este ultimo, revisitou o tema no seu livro Dr. Faustus, e a personagem principal (Fausto) é agora um compositor chamado AdrianLeverkühn, que assina o pacto demoníaco para ter um avanço na sua arte. A imagem de Adrian Leverkühn como compositor é baseado em Arnold Schoenberg e o avanço artístico não é mais do que o sistema de composição dodecafônico.


NA MÚSICA

Este tema épico tem sido explorado por vários compositores desde o êxito da obra de Goethe. Começando por Beethoven, que dispensa apresentações, até ao grupo Muse, todos se debruçaram sobre o tema e transcreveram para sons o rol de sentimentos e a acção narrativa da história. Segue-se alguns compositores/autores que fizeram um pacto com Fausto e Mefistófeles para musicar a sua história:

2. Louis Spohr, Faust 1813
3. Franz Schubert, Gretchen am Spinnrade 1814
4. Richard Wagner, Faust Overture 1840
5. Peter J von Lindpaintner, Faust Overture 1840
7. Charles Valentin Alkan, Grand Sonata 1848
8. Robert Schumann, Scenes from Goethe’s Faust 1853
9. Franz Liszt, Faust Symphony & Two Scenes from Lenau’s Faust 1854-57
10. Charles Gounod, Faust 1859
12. Arrigo Boito, Mephistopheles 1868
13. Florimond Louis Hervé, Le Petit Faust 1869
14. Pablo de Sarasate, Faust Fantasy 1874
15. Modest Mussorgsky, Mephistopheles’ Song of the Flea 1879
16. Heinrich Zöllner, Faust 1887
17. Gustav Mahler, Symphony No. 8 1906-07
18. Richard Thiele, Faust and Gretchen: A Comic Sketch
19. Ferruccio Busoni, Doktor Faust 1916-25
20. Igor Stravinsky, Soldier’s Tale 1918
21. Sergei Prokofiev, The Fiery Angel 1919-26
22. Jan Bouws,Lied van dieVlooi 19--
23. Havergal Brian, Faust 1955-56
25. Konrad Boehmer, Doktor Faustus 1983
26. Alfred Schnittke, Faust Cantata & Historia von Doktor Johann Fausten1983/1994
27. Charlie Daniels Band, The Devil Went Down to Georgia 1979
28. The Fall, Faust Banana 1986
29. Randy Newman, Faust 1993
30. Art Zoyd, Faust 1993-95

O tratamento musical dado ao tema foi evoluindo ao longo dos anos como reflexoda época musical e das suas características.O uso de dissonâncias para caracterizar o mal e o recurso a tríades perfeitas na representação do bem, são principalmente demonstradas pelos autores até ao século XX. Acordes dissonantes, temas no registo grave, ritmos fortes, passagens bruscas das dinâmicas, entre outros, são exemplos de recursos usados para representar o mal. Nada melhor que estes recursos musicais para descrever o inferno, habitualmente assumido como um lugar profundo e fechado, com lotação esgotada e com seres horrendos e mal formados. Este inferno terá sempre uma luz vermelha, uma técnica usada nas artes plásticas e no cinema para a representação do mal. A felicidade, o sorriso, a compaixão, ou seja, o bem, é sonorizada com acordes perfeitos, melodias simples, uma orquestração muito equilibrada, leveza de ritmos etc., dando a ideia de céu, de espaço sem fim, de harmonia. A cor azul, etérea, a cor do céu, é usada para representação plástica do bem. Conciliando estas duas representações, dissonância + vermelho = mal e acordes perfeitos + azul = bem, obtém-se uma ferramenta poderosíssima de comunicação, que é sobejamente utilizada no cinema e na publicidade.

NO CINEMA

Com o advento do cinema, no século passado, a épica e trágica história de Fausto adaptava-se perfeitamente ao grande ecrã. Sendo transposta quase literalmente para o cinema ou em fragmentos/ideias base, tem sido sistematicamente reproduzida até aos dias de hoje. Filmes como O Advogado do Diabo (1997), Parnassus - O Homem Que Queria Enganar o Diabo (2009) ou mesmo Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith (2005) são sucessos de bilheteira que beberam directamente ou indirectamente da fonte do Dr. Johannes Georg Faust. Faust, um filme mudo de F.W. Murnau de 1926, sua última realização em território alemão e baluarte do expressionismo, reproduziu em filme, com diferenças, a obra de Goethe. Nos seguintes excertos, tentou-se expressar musicalmente a narrativa do filme (Faust), através de algumas composições dos autores supramencionados. 

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Este video retrata o primeiro encontro e a sedução de Mefistófeles com Fausto. A música é de Henri Pousser, Votre Faust.

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Fausto (depois de ficar novo e viver as aventuras inimagináveis) fica com saudades de casa.
Liszt acompanha com a sua Sinfonia Fausto. 

Não só a literatura, a música e a sétima arte usaram esta epopeia sobrenatural. Assim fica uma lista de obras, em todas as expressões artísticas, em que o tema era Fausto, nalguns de uma forma clara e óbvia e outros a exigirem atenção redobrada para descobrir Onde Está O Fausto.

Paulo Jorge Miranda Araújo
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Fontes documentais:
Corder, F.(1886).The Faust Legend, and Its Musical Treatment by Composers: 
The Musical Times and Singing Class Circular, Vol 27
Roos, Dorette Maria (2010), "The Faust legend and its musical manifestations: A historical overview", Tese de mestrado em Música. Matieland, South Africa: Stellenbosch University

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