segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cinema e Música




To me, movies and music go hand in hand. When I'm writing a script, one of the first things I do is find the music I'm going to play for the opening sequence.  Quentin Tarantino





A banda sonora é um aspeto fundamental de qualquer filme e é, normalmente, a última fase da sua pós-produção. Considerada por vários especialistas um ‘veículo transportador de emoções’, uma banda sonora diz-nos como experienciar uma determinada cena, sendo óbvia a importância desta componente para o sucesso de qualquer filme. A obra mais grandiosa pode falhar redondamente caso a sua banda sonora não esteja à altura de a acompanhar. Existem inclusive vários realizadores de cinema que afirmam construir determinadas cenas de forma às mesmas se enquadrarem com um determinado tema musical, sendo esta uma situação em que acaba por ser a própria música a conduzir o desenrolar da cena.



Nos primórdios, por impossibilidade técnica, o filme era desprovido de som (banda sonora ou diálogos), e os realizadores e espectadores pouco se importavam com isso. A interpretação dos atores era mais física e expressiva, uma vez que o som dos diálogos era inexistente.



Quando o sonoro surgiu, no filme The Jazz Singer (1927, com o ator Al Jonhson a imitar um cantor de jazz negro), houve alguma resistência por parte de grandes vultos do cinema à novidade técnica do som.



The Jazz Singer, Alan Crosland



              Os realizadores de cinema cedo se aperceberam da grande importância que a música detinha como complemento das imagens. Por isso Eisenstein trabalhou logo em 1938 com o compositor Sergei Prokofiev, que compôs a banda sonora épica do filme Alexander Nevsky, num exemplo acabado da perfeita sincronia criativa entre imagem e som. 


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            Depois de Lieutenant Kijé (1934) e Pique Dame (1936), Prokofiev escreveu esta banda sonora, estando envolvido não apenas na composição como também na sua gravação. Experimentou os microfones de várias distâncias diferentes, de forma a obter o som desejado – as trompas (que representavam as Ordens Teutónicas) tocaram extremamente perto dos microfones para o som ser estridente e distorcido; os metais e os grupos corais foram gravados em estúdios diferentes, juntando-se mais tarde, numa fase final.
               O compositor utilizou diversos estilos musicais, de forma a invocar o imaginário necessário. Por exemplo, as Ordens Teutónicas (vistas como um adversário) eram representadas pelos instrumentos de metal mais graves que tocavam acordes completamente dissonantes num estilo marcial. Por sua vez, as complacentes forças russas eram predominantemente apresentadas num estilo folk, pelas madeiras e pelas cordas.
               Depois de escrever a música para o filme, Prokofiev decidiu fazer um arranjo da obra e dirigiu uma cantata para mezzo-soprano, coro e orquestra (estreada a 17 de Maio de 1939 em Moscovo). Uma vez que os elementos do filme se mantiveram, é importante, para se perceber a interação música-filme, a explicação dos seus 7 andamentos:
1.      "Russia under the Mongolian Yoke" – O andamento começa lento em Dó menor, recriando uma imagem de destruição, a qual a Rússia sofreu aquando a invasão dos Mongols.
2.      "Song about Alexander Nevsky" – Este andamento representa a vitória do Príncipe Alexander Yaroslavich sobre o exército sueco na Batalha de Neva em 1240. Alexander recebe o nome de Nevsky em forma de agradecimento.
3.      "The Crusaders in Pskov" – Para este andamento, a intenção inicial de Prokofiev era utilizar apenas música religiosa do século XIII, contudo, os exemplos que encontrou no Conservatório de Moscovo soaram frios e aborrecidos para o século XX, acabando por desistir dessa ideia. Compôs um tema original onde evocava a brutalidade das Ordens Teutónicas.
4.      "Arise, ye Russian People" – Este é um chamamento do povo russo às armas.
5.      "The Battle on the Ice" – O quinto (e maior) andamento é claramente o clímax da cantata. Representa o choque final entre as forças de Nevsky e das Ordens, numa superfície congelada do lago Peipus em 1242. O início sereno é contrastante com o chocante meio do filme, o qual é todo ele num estilo cacofónico.
6.       "The Field of the Dead" – De novo em Dó menor, este é o lamento da rapariga que procura o seu amante, e beija as pálpebras de todos os mortos em busca do seu amor. O solo é então feito pela mezzo-soprano.
7.      "Alexander's Entry into Pskov" – O sétimo e último andamento ecoa o segundo, recordando o triunfante regresso de Alexander a Pskov.
E como esta fantástica obra cinematográfica ficou guardada nas mais emblemáticas, há outras que ainda hoje são citadas com bastante frequência, dada a sua genialidade.
Há pequenos e determinados pormenores nesta arte que talvez passem despercebidos a pessoas que vejam o filme com menos atenção mas, aquilo que a música, em sintonia com um bom filme, pode fazer, é inteligente. Em The Straight Story, por exemplo, David Lynch brinca com a recordação do pobre velho ao pensar na Segunda Guerra Mundial. Vai narrando a sua história, correndo nas lembranças, mantendo a imagem fica fixa nele enquanto sons de aviões, tiros e tudo o mais começam a ser ouvidos.
                                                                                                          The Straight Story, David Lynch
É cada vez mais evidente a importância das bandas sonoras num filme ou série. É engraçado até ver que há determinadas músicas que são associadas de imediato a um filme, músicas que marcam bons momentos, boas amizades ou um amor vivido. É também para mim um enorme prazer falar sobre este assunto, como músico e apreciador de música que sou e, acima de tudo, como apaixonado pelas chamadas “músicas para filme”.


“Veja um filme em silêncio e depois veja-o outra vez com os olhos e os ouvidos. A música dá o clima para o que seus olhos vêem, guia suas emoções, é a moldura emocional para o que as imagens mostram”  David W. Griffith







A66908 - Jorge Manuel Fernandes Freitas

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